
Flávia tinha verdadeiro pavor de contato humano. Era tida como excêntrica e antipática pelos colegas de trabalho. "Não sei a quem puxou", dizia dona Heloísa, sua mãe. O fato é que arrepios assombrosos lhe percorrim a espinha toda vez em que se via na obrigação de cumprimentar alguém.
Houve um dia em que foi abordada por um estranho na rua. Quando Flávia sentiu o par dedos alheios tamborilando suavemente no seu ombro esquerdo, o coração parou, o ar escapou dos pulmões e as pupilas se contríram. O pânico se instalou de tal forma que não conseguia se mexer. Era o fim.
Excuse me, lady. I'm kind of lost and I'd like to know: Where is the art museum? Flávia mantinha-se estática, muda e refratária. O turista caricato tomou um susto com a reação da moça, mas insistiu. Sorry, lady, do speak English?
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Sentiu-se leve como nunca. Os joelhos cederam e ela foi ao chão em câmera lenta. Há quem diga tê-la ouvido murmurar algo que soou como um "how do you do?" antes de morrer.
Anthony foi deportado no dia seguinte. Os colegas de trabalho trocaram uma centena de emails durante o horário comercial por uma semana. Dona Heloísa converteu-se a uma fervorosa facção cristã, vendeu a casa de praia e doou o dinheiro para Jesus.
(Gica)

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